Saturday, January 14, 2012

Eu espelho.

Era uma vez um comerciante de espelhos que é retirado do seu sono pelos gritos de um rapaz em puro pânico que lhe batia à porta da loja/casa. O rapaz jurava a pés juntos estar a ser perseguido pela Morte. O comerciante não tem tempo a perder e engendra um plano para enganar a morte e assim poupar o rapaz. A Morte chega à loja/casa do comerciante e não consegue perceber o que se passa: em vez de encontrar um rapaz, encontra dez, todos num semicírculo.

Era também uma vez um feiticeiro muito poderoso cujo grande desejo era atingir a imortalidade. Ora, para se tornar imortal, decidiu separar a sua essência em sete partes. Guardou-as em sete locais distintos. Enfraqueceu-se, mas tornou possível o despiste da Morte.

Quero estar um bocadinho aqui, um bocadinho naquele espelho e outro bocadinho acolá. Quero dividir-me e multiplicar-me (já me dividi e já me multipliquei). Mais é mais.

(Quero, não muito secretamente, estar em mais do que um corpo).

P: Como é que vais morrer se não estás só aqui?

R: Não morres. Só morres se eu espreitar e tiver essa imagem queimada na nuca. Quem decide então, pela morte?

Tipo espelho-de-mão, trago-te no bolso. A ti e à navalha. Estou a dar uma volta com a minha melhor amiga (tu). Não me julgues pelo conteúdo dos meus bolsos. Ponho os ovos onde eu quiser! A penicilina mantém-me consciente, onde quer que eu vá o espelho-de-mão e a seringa têm de vir comigo. Eu sem medicina não tenho voz. Prefiro que me arranquem as amígdalas com essas mãos que já foram minhas.

Encontrem-me as entranhas e escrevam-me nelas com giz branco.

Façam-me a tabuada no osso exposto. É assim, o blogue de uma hipocondríaca.

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