Wednesday, November 13, 2013

estou catatónica.
estou a ver pessoas mas mesmo assim, aborreço-me.
não sei, se calhar devia ficar mais fascinada pela humanidade.

estou fascinada com a minha humanidade.

tenho tanta coisa para fazer.
tenho tantas coisas para ler.

tanta coisa na minha sinapse.

nervos carregados de informação.

não sei mais de que pensar.

porque é que estou assim?
algo está errado, aqui.

já manchei o vestido todo.
mãe, como se lavam nódoas de lágrimas?

estrago tudo
estrago tudo
estrago tudo.


o meu rácio de desculpas/vida é maior que os vossos todos juntos.

Thursday, October 17, 2013


Todas as relações são baseadas em mentiras.

(Eu sei que) às vezes dormes comigo
Só para não dormires sozinha.

Anda lá dormir comigo,
Aprende a respirar ao meu ritmo.
Eu aprendo a fingir que não ouço os teus peidos.

É triste lembrares-te dos lenços quando não tens nada por que chorar.

Silly girl, a contar os dias. Guarda isso para o luto.

Porque é que viagens de comboio e lágrimas combinam sempre tão bem?
Estás sozinha e tens as gavetas cheias de talheres. Compraste toalhas-de-mão para convidados que nunca mais chegam.

Ela faz keggels e chora.

Tuesday, July 30, 2013

O calendário continua no teu mês. Aquele que costumava ser o meu mês, passou a ser o teu.
Havia uma música que chamava a atenção para os relógios dos mortos.
Os óculos dos mortos. Os objectos dos mortos.

Por mais que eu tente saber se ainda te encontras aqui, tudo dói.

Ontem fiz bolo de chocolate, aquele que tu gostas, de tabuleiro. Deixei-te na cozinha para comeres enquanto vias a bola. Se calhar não viste, ou então não tinhas fome. Se calhar a culpa foi minha por ter memorizado os cubos de bolo que cortei. Devia ter-me esquecido.

Hoje liguei à mãe e, por talvez um segundo ou menos, pensei em perguntar por ti.

Não sei se estou a lidar bem com isto. Se calhar devia ter chorado mais na altura "certa". Se calhar agora já tinha mudado o calendário.

Se eu te conseguisse escrever um email, eu dizia-te o quanto estou contente com o meu novo trabalho. E o quanto estou contente por te poder dizer que já não preciso que me dês uma mesada (vou precisar sempre de ti.) Sim, pai, bora por esse dinheiro de parte, e fazer uma conta poupança - porque nunca se sabe o dia de amanhã. (Aprendi tanto contigo.) Eu sei que tu me fazias sempre as vontades, mas desta vez, faço eu uma tua (sigo o teu conselho.) Não, não posso ir ao Avante, porque nessa altura começam as aulas. Vou-te fazer ficares orgulhoso de mim, e contente de eu ter vindo para cá. E, em resposta, tu dizias uma daquelas frases conhecedoras, como todos os bons pais dizem. Nunca foste exigente, mas acreditas nos caminhos que eu escolhia. E isso era suficiente. A dor da tua falta só passa quando eu fico envergonhada de estar a chorar. Tu não percebias isso e não gostavas de nos ver chorar. Eu fico envergonhada porque sei que me estás a ver.

É estranho, mas parece que ainda estou a falar contigo no Skype todos os dias, a caminho da universidade. Parecia que não dizíamos muito, mas nós sabemos que não era bem assim.

Sunday, March 31, 2013

às vezes ainda estou à espera que apareças por aqui.

ouço alguém entrar no prédio, as chaves a chocalhar como as tuas.

olho para a bancada e vejo-te a almoçar de pé o teu pedaço de pão com queijo que era q.b.

já sei que tenho de escolher bem os momentos para ir ao wc, porque coincidem sempre com os teus e depois ficas muito chateado!

enquanto isso, vais até ao pc onde te preocupas connosco. Ainda bem que eu te avisei, que estava tudo bem. Que tinha planos e ideias, e que não era preciso preocupares-te. Era tudo verdade, pai. Depois lembro-me daquela vez em que me chamaste nomes, e eu a ti, na minha cabeça. Quando for grande quero ser como tu.

Quero encostar a cabeça na almofada e ouvir o som do teu rádio, muito alto, como tu gostas de pôr. Quero perguntar-te outra vez, sobre como foram todos os anos da tua vida antes de eu existir. Quero saber todos os pormenores. Eu sei que sou chata, mas acho muito injusto só saber esta parte. E as outras pessoas que se foram despedir de ti, que te conheceram "uma vida inteira"? Que te conheciam "há mais anos"? A minha dor não se mede aos anos. Espero que saibas. A minha dor mede-se aos decibéis, o som que falta nesta casa - o teu som.

Friday, March 29, 2013

Há dias que não vejo nada senão este chão
Estas paredes
Estas camas e estas janelas.

Isto tanto podia ser uma prisão como um hospital.

O clímax da saúde e da doença, da felicidade e da tristeza.

A mim ninguém me tira daqui.

As amarras que me prendem são feitas de luxo e glória. São feitas de mais do que iogurte seco nos cantos da minha boca. São muito mais que a minha garganta seca. São feitas de mim e de ti.

As pessoas são cântaros de barro. Cheios de água. Quando a água transborda, tal não é a quantidade abismal de saúde ("tudo de bom!"), nasce um pequeno cântarozinho. Um mini eu ou um mini tu.

Mas a minha água secou hoje, evaporou. E agora estou vazio. E se me partem, transformo-me em pó. 
E assim já ninguém me compra. Já não sirvo.
21/03/13

Saturday, March 23, 2013

Não ligues, pai.

Eles não sabem que tu és surdo.

E que tu não gostas de Cristo. Não ligues.

A mãe fez aquilo que achou melhor, melhor para todos. Sabes que a maioria faz a força.

Misericórdia, dizem eles. Se fosses tu, dizias que misericórdia é a Casa do Caso Pia. Que Misericórdia é ter amor aos nossos. É dizer que sim às cooperativas e dizer que sim aos amigos e às amigas aos domingos. Dizer que somos todos iguais, uns mais iguais que outros.

E por falar em Maria, a tua única Maria era a mãe. "Maria, anda lá à bica."

"Maria, qual é a roupa para esta ocasião?"

"Maria, porque é que me puseram neste caixão?"

"Maria, muito obrigado por me fazeres a vontade. Eu não deixei escrito como tu dizias."

"Maria, espera aí por mim, porra."

Macacos me mordam se eu não vou assinar o meu próprio livro de condolências.

Ó pai, eles disseram o teu nome. Sem problemas nem hesitações disseram o teu nome completo. Como se estivesses nalgum serviço público. Chamaram-te e pronto. Tens de aparecer. Isto é como um serviço público. E agora inscreveram-te para a vida eterna. Se aqui estivesses (a sério) estarias lá fora, a fumar um cigarrinho. Vou ver se estás lá fora. Isto está a ficar mórbido.

Sinto-te aqui no ar frio desta manhã cinzenta. Tu gostavas de usar cinzento. Aquelas calças cinzentas. Se estivesses aqui eu dizia que está um frio muito escocês! E tu dizias, "Pois..." E eu perguntava-te quando é que me ias visitar. "Tens de ir na graduação, pai!" E tu davas um pouco de esperança e dizias "Logo se vê, filha."
Já era o suficiente para mim. E eu fiquei muito contente.

Estou a pensar nisto como se fosse uma grande festa uma grande festa uma grande festa para ti. Lembras-te, como quando fizeste 50 anos. Juntaste muita gente muita gente muita gente muita gente. Devias ter feito a mesma coisa quando fizeste 60 e 65. Juntar muita gente muita gente.

Tuesday, March 19, 2013

Friday, February 22, 2013

Maybe we should start planning
'Cause now its cool to be awkward

And if everything goes according to plan, I'll have you for dinner.

And if you don't show up,
I'll have your bones for trophy
Your smile for Santa
You know your dysmorphic love will tear you apart

There's no magic wand to fix you
But I can assure we will have some fun.

Aren't you all about that?
Aren't you all about fun?
Daily doses of intravenous f-u-n
F-u-c-k you,
F-u-c-k you.

Magical creatures don't have a number
I'm no magic
I'm real
The realest I'll get

Maybe we should try the other side of the bed.
See if we get it better
Does the devil follow you around?
Like I do
Like we do
Can we do it on the other side of the Wall of China
You're a Great Wall
Can I call you that?
Can I call you?

Sunday, February 10, 2013


He told me from the beginning he wouldn't do anything long term. He was afraid of losing stuff.

I told him, I'm not in your pocket, so I can't fall into it.

'You know where you want to go' he would say with sweet eyes. His eyes still half-closed from yesterday's sleep.

We're in different time zones.

'Time zones?'

You have a lot more time than me, I'm sure.

He only wanted to know my habits. Just so he could take them all. One by one. His mom warned me: 'He only takes. He doesn't give anything back.'

I'm fucked. No one warned me they were going to be late. His skin doesn't like surprises. Mine doesn't either. That's why I use a bit of your skin in mine, everyday.

I go through the days, which will turn weeks and months. Always carrying a bit of you. I don't wanna forget the promise. I still don't have anything from you.

But I want.
I want the sky and the stars
The couples' promises
The lovers' promises

Your senses
Your bad will.
The clothes you're wearing. And your clothes on the floor.
And your nerves
And your chemical imbalance
And your knees, trembling
And your best half-smile. In your best half-photo.
You are the news. My news.

Thursday, February 7, 2013

Ele disse-me logo que nunca fazia nada a longo prazo, com medo de perder as coisas.

Eu disse-lhe, eu não vou no teu bolso, por isso não vou cair lá dentro.

"Só vais onde tu quiseres" dizia ele com olhos doces e porcos de ramelas do dia anterior.

Estamos em zonas temporais diferentes.

"Zonas temporais?"

Tu tens muito mais tempo que eu, certamente.

Ele só me queria conhecer os hábitos, para depois mos tirar. Um por um. A mãe dele bem me avisou. "Ele só tira coisas, não dá nada a ninguém."

Tou fodida com isto. Não avisaram que podia haver atrasos. A pele dele não gosta de surpresas. Muito menos a minha. É por isso que espalho na minha, todos os dias de manhã, um pouco da tua.

Atravesso o dia, os dias, que vão ser meses. Sempre com um bocadinho de ti. Não me quero esquecer da tua promessa. Ainda não tenho nada teu.

Mas quero.
Quero o céu e as estrelas
As promessas dos namorados
As promessas dos amantes

Os teus sentidos
A tua má vontade.
A tua roupa vestida e a tua roupa despida
E os teus nervos
E o teu desequilíbrio químico
E os teus joelhos a tremer
E o teu melhor sorriso
És a novidade. Porta-te como tal.

Sunday, January 6, 2013

É fácil estares aí no teu poleiro
E sorrires daí
para os pobres cá em baixo.

Pobres de nós que não temos a tua companhia.
Pobres de nós que não respiramos o mesmo ar que tu.
Há quem diga que respiramos o mesmo ar que o Shakespeare.
Mas o ar que respiras tem um sabor diferente.
Um veneno suave e doce.
Quando beijas sabes a lágrimas e a sangue das feridas nos pulsos.
Quando abraças mijas para fora.

Porque te mentes?
Porque te fazes de maior?
Pavão do outro lado do espelho.
Tens flashbacks de vidas que já não são tuas.