O calendário continua no teu mês. Aquele que costumava ser o meu mês, passou a ser o teu.
Havia uma música que chamava a atenção para os relógios dos mortos.
Os óculos dos mortos. Os objectos dos mortos.
Por mais que eu tente saber se ainda te encontras aqui, tudo dói.
Ontem fiz bolo de chocolate, aquele que tu gostas, de tabuleiro. Deixei-te na cozinha para comeres enquanto vias a bola. Se calhar não viste, ou então não tinhas fome. Se calhar a culpa foi minha por ter memorizado os cubos de bolo que cortei. Devia ter-me esquecido.
Hoje liguei à mãe e, por talvez um segundo ou menos, pensei em perguntar por ti.
Não sei se estou a lidar bem com isto. Se calhar devia ter chorado mais na altura "certa". Se calhar agora já tinha mudado o calendário.
Se eu te conseguisse escrever um email, eu dizia-te o quanto estou contente com o meu novo trabalho. E o quanto estou contente por te poder dizer que já não preciso que me dês uma mesada (vou precisar sempre de ti.) Sim, pai, bora por esse dinheiro de parte, e fazer uma conta poupança - porque nunca se sabe o dia de amanhã. (Aprendi tanto contigo.) Eu sei que tu me fazias sempre as vontades, mas desta vez, faço eu uma tua (sigo o teu conselho.) Não, não posso ir ao Avante, porque nessa altura começam as aulas. Vou-te fazer ficares orgulhoso de mim, e contente de eu ter vindo para cá. E, em resposta, tu dizias uma daquelas frases conhecedoras, como todos os bons pais dizem. Nunca foste exigente, mas acreditas nos caminhos que eu escolhia. E isso era suficiente. A dor da tua falta só passa quando eu fico envergonhada de estar a chorar. Tu não percebias isso e não gostavas de nos ver chorar. Eu fico envergonhada porque sei que me estás a ver.
É estranho, mas parece que ainda estou a falar contigo no Skype todos os dias, a caminho da universidade. Parecia que não dizíamos muito, mas nós sabemos que não era bem assim.
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