Sunday, March 31, 2013

às vezes ainda estou à espera que apareças por aqui.

ouço alguém entrar no prédio, as chaves a chocalhar como as tuas.

olho para a bancada e vejo-te a almoçar de pé o teu pedaço de pão com queijo que era q.b.

já sei que tenho de escolher bem os momentos para ir ao wc, porque coincidem sempre com os teus e depois ficas muito chateado!

enquanto isso, vais até ao pc onde te preocupas connosco. Ainda bem que eu te avisei, que estava tudo bem. Que tinha planos e ideias, e que não era preciso preocupares-te. Era tudo verdade, pai. Depois lembro-me daquela vez em que me chamaste nomes, e eu a ti, na minha cabeça. Quando for grande quero ser como tu.

Quero encostar a cabeça na almofada e ouvir o som do teu rádio, muito alto, como tu gostas de pôr. Quero perguntar-te outra vez, sobre como foram todos os anos da tua vida antes de eu existir. Quero saber todos os pormenores. Eu sei que sou chata, mas acho muito injusto só saber esta parte. E as outras pessoas que se foram despedir de ti, que te conheceram "uma vida inteira"? Que te conheciam "há mais anos"? A minha dor não se mede aos anos. Espero que saibas. A minha dor mede-se aos decibéis, o som que falta nesta casa - o teu som.

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