Monday, April 9, 2012

A minha altura do dia preferida era a manhã. Acordo de um sonho cor-de-rosa (tal como desejado na noite anterior pela minha mãe.) Para um histerismo pré-puberdade que só não acorda os vizinhos porque não calha. Acordava muitas vezes assim. Sonhava com vestidos e bandoletes. Cuequinhas e bolas de futebol. Qualquer que fosse o trapo a cobrir o meu objecto de desejo, eu dormia sempre despido.

Gosto muito de viver nesta casa. As outras não tinham tantos meninos. Aqui posso fazer parte da vidinha deles. Ajudá-los com os trabalhos de casa e até com os banhinhos. Ás vezes, para brincarmos todos juntos, fazíamos desenhos. Fazíamos desenhos na minha pele. Eu tirava a camisa de flanela e dava-lhes canetas de feltro. Explicava-lhes: em vez de desenharem no papel, desenham nas maminhas e na barriga do Tio.

Havia dias em que acordava com vontade de engolir meio mundo - ou então as minhas sobrinhas - o que me aparecer primeiro à frente.

Ouvi-las brincar mesmo por trás da porta do meu quarto fazia as borboletas por detrás do meu joelho saltitar. Não era só o riso de alegria, o correr de felicidade ou o piscar de olhos de marotice. Era também o berrar da dor de dentes e o chorar das palmadas educacionais. Era tudo. E elas nem tentavam.

Toquei-me enquanto elas riam de mim por trás da porta.

A homogeneidade das criancinhas é o laxante do meu universo. Às quartas-feiras reconheço que sou minúsculo. Elas vêem-me sempre da mesma forma. Esteja eu onde estiver. Sou um monstro simpático.

E o caminho que me separa delas é a montra onde me faço mais bonito. O vidro onde não me vejo gigante nem masculino. O vidro que me mostra aquele que eu não sou mas identifico. Alucino-me todos os dias em frente ao espelho. Só me aguento assim.

Pela fechadura que não tem fim, espreita o escorrega para o meu abismo preferido. Lá ao fundo vejo as luzinhas nos pezinhos deles, aquelas luzinhas daqueles ténis caros que os paizinhos lhes compram. Porque eles pedem muito. Eles pedem sempre muito.

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