Saturday, April 28, 2012

Por que insistes em aparecer quando não há sol?

Por que entras pela porta que tu próprio fechaste e ficas pela ombreira? Esperas alguma revelação ou, quem sabe, maldição?

Não me exponhas à tua felicidade re-descoberta. Não precisaste de mim para me odiares.

Se precisas de auto-validação, sabes onde me encontrar. Mas tu sabes que isso me dói. Fazes-me doer.

Sabes que caminho apressado de um lado para o outro. Do outro lado da porta, imagino o teu respirar. Imagino que me vais fazer uma surpresa e tocar à campainha. Eu nunca atendo a campainha porque, apesar de sonhar contigo todos os dias, sei que não vens. Eu sei que não gostas de surpresas.

adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-
adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-adoro-te-odeio-te-
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amor 82,5 ódio 82,5


No ciclo para o qual me atraíste eu respiro para as cartinhas de amor escritas na parte detrás de um bilhete de comboio. No ciclo para o qual eu vivo agora, sou como um burro a quem puseram uma cenoura à frente. És a rodinha do meu laboratório só que os resultados nunca são bons (só a metodologia).

Wednesday, April 25, 2012





O fenómeno de Michelangelo não me deixou mentir. Matei-os a todos com a verdade (aquela.) Com a face que apresento ao outro lado do espelho todos os dias. O meu espelho tem duas verdades. O meu caminho tem seis alternativas. Lanço o dado pelas pedras dessa calçada e desligo a luz porque vejo bem de dia.

[A culpa pode dar-te cefalalgias mas efeito de nocebo é o melhor comprimido que alguma vez poderás tomar em demasia. O estrábico não paga mas também não anda no carrossel.]

Depois de estar perdida, quero agrafar a minha pele à tua. Quero ver os grãos de areia cair. Um a um. Quero acender velas com o nosso bafo a jasmim.

Infernos e infernos de escadas. Ninguém me disse o caminho para o pé de ti. Mas eu perguntei. Eu não tive vergonha e perguntei.

Eu já cheguei aqui, e tu?

Monday, April 23, 2012


uma mão que nunca ajuda a outra
uma mão que nunca encontra a outra
uma mão
a mão da outra
a mão que não chegou e a mão que nunca entrou.

PS: tenho tremores nos olhos e, desta vez, a culpa não é de ninguém.

Friday, April 20, 2012

Do outro lado                                        da janela                                  no último andar


alguém aponta a arma ao seu próprio coração.



Esse último andar é o nível mais difícil do jogo onde o último vilão és tu.



Para te conquistar conto-te segredos mil.

Mil e um grãos de areia e peças de Lego® (todos os dias há mais para guardar).

Como numa aventura fantástica, escondeste os bónus mais coloridos e reluzentes.

Eu - só mas feliz - persigo-tos.


Felizmente, o veneno do envenenador tem o número oitenta e um. E toda a gente sabe que esse é o nosso número. Aquele que apresentamos no circo TODO O SANTO DIA.



Ao menos ambos sabemos que és tudo menos santo.

Saturday, April 14, 2012

eu amo-te
amo te amo te amo te amote
amo te amo te amo te amo te amo te amo te
amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te
amo te amo te amo e na esperança de te ter amo te amo te amo te
 amo te amo te amo espero mais uma geração amo te amo te amo te
amo te  amo te amo sou paciente do teu amor te amo te amo te amo te
 amo te amo te amo és a droga que me alimenta o vício te amo te amo te amo te
amo te amo te amo não preciso de mais ninguém te amo te amo te amo te
amo te amo te parabéns, ganhaste o afecto de um vampiro amo te amo te amo te
amo te amo te amo te amo te amo te amo vive para sempre comigo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo teamo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te vive para sempre comigo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo teamo te amo te amo te amo te amo te vive para sempre comigo amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te  vive para sempre comigo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te
amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo teamo te amo te eu amo-te, vive para sempre comigo

Friday, April 13, 2012

Vou brincar com a tua noção de seguro. Vê-la passar de mãos em mãos. Vê-la afundar-se no meu umbigo. Ver-te afundar no meu umbigo. Vou passar-te os meus caminhos e os meus venenos e todas as minhas más ideias.

Vais ficar cheio de dores de cabeça.

A mim não me incomodam as pessoas à volta do meu umbigo (querem todos lá entrar.) Eles sabem que tenho bons genes debaixo do chapéu-de-chuva. Eles só não sabem que tiopental e pancurônio dá dores na barriguita.

Eu posso falar porque o meu umbigo é bonito. Para ti, eu guardo o cloreto de potássio num frasquinho cor-de-pêssego.

Thursday, April 12, 2012

e se alguém tivesse acesso às luzes do meu quarto eu aposto que tudo seria muito mais fácil. e se toda a gente admitisse que gostava de ter janelas para o seu quarto. e se todos os dias me dissessem que sou bonito. e se todos os dias eu me sentisse bonito. e se todos os pares de sapatos tivessem rodinhas debaixo. era muito, muito mais fácil. eu nunca gostei de geografia. por mim, a geografia podia ser completamente eliminada deste planeta. podíamos habitar num mundo paralelo, eu e tu. podíamos estar num planeta onde não havia geografia (não havia estradas para percorrer nem promoções para aproveitar.) Uma passadeira infinita. Uma passadeira infinita com dois milhares de quilómetros inpercorríveis (nesta matriz.)

e se te fazem confusão os meus parêntesis, fica sabendo que são quânticos.

PS: eu nunca me queixei dos teus. E não, não estou a ser passive-aggressive. Isto não é tudo sobre ti. Isto também é um blogue de receitas. (Para o caos quântico.)

Monday, April 9, 2012

A minha altura do dia preferida era a manhã. Acordo de um sonho cor-de-rosa (tal como desejado na noite anterior pela minha mãe.) Para um histerismo pré-puberdade que só não acorda os vizinhos porque não calha. Acordava muitas vezes assim. Sonhava com vestidos e bandoletes. Cuequinhas e bolas de futebol. Qualquer que fosse o trapo a cobrir o meu objecto de desejo, eu dormia sempre despido.

Gosto muito de viver nesta casa. As outras não tinham tantos meninos. Aqui posso fazer parte da vidinha deles. Ajudá-los com os trabalhos de casa e até com os banhinhos. Ás vezes, para brincarmos todos juntos, fazíamos desenhos. Fazíamos desenhos na minha pele. Eu tirava a camisa de flanela e dava-lhes canetas de feltro. Explicava-lhes: em vez de desenharem no papel, desenham nas maminhas e na barriga do Tio.

Havia dias em que acordava com vontade de engolir meio mundo - ou então as minhas sobrinhas - o que me aparecer primeiro à frente.

Ouvi-las brincar mesmo por trás da porta do meu quarto fazia as borboletas por detrás do meu joelho saltitar. Não era só o riso de alegria, o correr de felicidade ou o piscar de olhos de marotice. Era também o berrar da dor de dentes e o chorar das palmadas educacionais. Era tudo. E elas nem tentavam.

Toquei-me enquanto elas riam de mim por trás da porta.

A homogeneidade das criancinhas é o laxante do meu universo. Às quartas-feiras reconheço que sou minúsculo. Elas vêem-me sempre da mesma forma. Esteja eu onde estiver. Sou um monstro simpático.

E o caminho que me separa delas é a montra onde me faço mais bonito. O vidro onde não me vejo gigante nem masculino. O vidro que me mostra aquele que eu não sou mas identifico. Alucino-me todos os dias em frente ao espelho. Só me aguento assim.

Pela fechadura que não tem fim, espreita o escorrega para o meu abismo preferido. Lá ao fundo vejo as luzinhas nos pezinhos deles, aquelas luzinhas daqueles ténis caros que os paizinhos lhes compram. Porque eles pedem muito. Eles pedem sempre muito.
As minhas vísceras querem as tuas.


As minhas vísceras, na verdade, querem comer as tuas.


As minhas vísceras dizem-me o dia inteiro onde eu devia de estar.


As minhas vísceras comandam-me diariamente ao teu encontro. Elas não ouvem a razão.


As minhas vísceras são o antídoto da razão. E tu és kryptonite antiga.

Sunday, April 8, 2012

Entre palhaços e mimos; entre trapezistas e engolidores de facas. Ali estou eu e ali estás tu. De pé, de frente um para o outro. O mundo à nossa volta é um sonho sem fim. Daqueles em que acordamos e não queremos lá voltar. Infelizmente, as tuas vísceras seduziram-me. Vísceras. Suspiro ao pronunciar o teu nome. Pronuncio-te em vão e não me arrependo. Pronuncio-te porque me facilita o andar.

Um dia engulo-te com os olhos e passas a viver na minha retina.

Roubei-te as palavras porque não posso roubar mais nada. Eu provavelmente só te conheço a ti. Sou carteirista e a minha grande fraqueza é uma lista de crimes pelas quais não fui castigada. Felizmente, sou vegetariana falsa. Eles pensam que não como carne só porque como saladas. (Eles estão na minha lista negra.) E tu, também sonhas com a carne que não comes? Eu estou a apostar na tua curiosidade natural.

O que eu sou não te diz respeito; em parte nenhuma te toca.
Nasci para poucos e morro por quase ninguém.

Se queres definir-me junta os pontinhos: 1, 2 e 3. Vais desenhando a linha bonita, de ponto em ponto. Se quiseres também podes comprar uma vogal (vou fazer tudo para não te enforcar.)

Saturday, April 7, 2012

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

já não consigo viver sem ti

Thursday, April 5, 2012

Ele via, ela mexia. Ele controlava-a. Ela amaldiçoava-se. Ela batia com os punhos no espelho partido. Ele só se levantava quando era necessário. (Nem sempre era necessário.)

Eles piscavam muito os olhos. Piscavam demasiadas vezes. Quando faziam amor, não piscavam nunca. Porque não queriam perder nem um segundo do filme.

- O oxigénio torna-se promíscuo quando chega aos teus pulmões.
- O oxigénio suspira o teu nome e a tua pele preferida.

Eles não sabiam o que fazem um com o outro. Só se respiravam. Só se cheiravam. E, de repente, tinham facas para dedos e palhinhas para narinas.

As pulseiras eram as marcas do tempo e as marcas do espaço.

Ela queria ser mais rápida que o tempo. Enquanto ele, ele queria ser maior que o espaço. (Ter o maior espaço.)

Ele era ela e ela fez-se com ele.

Monday, April 2, 2012

Olá. Eu sou um homem muito porco. A minha pele é cor-de-rosa e tenho um nariz com as narinas muito para cima. Não escolhi este ginásio por acaso. As passadeiras e bicicletas elípticas estão viradas para a rua. Para além de me fazer sentir uma profissional do sexo holandesa, junto o útil ao agradável sendo que vejo os meus meninos e meninas do outro lado da estrada.

Eu sou um pedófilo bissexual. Não gosto de pôr de parte ninguém. E também detesto escolher. Assim, consigo agradar a toda a gente. E os meus meninos ficam todos contentes. Ninguém fica só.

Eles sabem os dias e horas a que vou ao ginásio. Eles gostam de ficar a brincar em frente à rede que nos separa. Claro que lhes vou dizer "olá" antes de começar o treino. Eles dizem-me todos bom dia. As meninas ficam coradas. Os meninos enchem o peito.

E depois, depois eles ficam a brincar nos baloiços e nos escorregas.

Há dias em que lhes trago doces e surpresas. Não posso levar muita coisa, e eles percebem isso. Prefiro levar pouco mas que dê para todos do que deixar uns sorridentes e outros tristes. Há dias em que gostaria de levar um deles para casa. Um menino hoje, uma menina amanhã. E assim sucessivamente até ao final do mês.

Há dias em que eles não estão no parque quando eu chego. Isso põe-me triste e sem vontade nem concentração para o treino. Felizmente, passados os primeiros vinte minutos, enquanto me mudo da passadeira para a bicicleta, ouço um enorme chinfrim lá fora. Levanto o olhar e é com a maior felicidade que os vejo romper pelas portas da creche em direcção às instalações coloridas. Atropelam-se uns aos outros na esperança de roubarem o melhor lugar. Na minha fantasia eles procurar o lugar com a melhor vista para a montra do ginásio. A montra onde eu me recosto, pedalando pé ante pé - joelho para cima, joelho para baixo. Na minha fantasia eu estou completamente só. 

Na minha fantasia eu estou só com os meus meninos. Eu coloco a mão dentro dos meus calções de desporto e acaricio a minha erecção. Na minha fantasia, do outro lado do vidro os meus meninos e as minhas meninas imitam-me. Uns em pé, com uma mão dentro das calças e outra na rede que delimita o território sagrado. Eles apoiam-se na rede. As meninas sentaram-se e apoiam-se no chão, com um bracinho debruçado para trás, o cotovelo no chão protegido. As meninas usam sempre saia. Elas sabem o que hão-de fazer com a outra mãozinha.

Na minha fantasia há uma Igreja-Creche-Infantil mesmo em frente do meu ginásio. E eles observam-me todos os dias.