Sunday, March 31, 2013

às vezes ainda estou à espera que apareças por aqui.

ouço alguém entrar no prédio, as chaves a chocalhar como as tuas.

olho para a bancada e vejo-te a almoçar de pé o teu pedaço de pão com queijo que era q.b.

já sei que tenho de escolher bem os momentos para ir ao wc, porque coincidem sempre com os teus e depois ficas muito chateado!

enquanto isso, vais até ao pc onde te preocupas connosco. Ainda bem que eu te avisei, que estava tudo bem. Que tinha planos e ideias, e que não era preciso preocupares-te. Era tudo verdade, pai. Depois lembro-me daquela vez em que me chamaste nomes, e eu a ti, na minha cabeça. Quando for grande quero ser como tu.

Quero encostar a cabeça na almofada e ouvir o som do teu rádio, muito alto, como tu gostas de pôr. Quero perguntar-te outra vez, sobre como foram todos os anos da tua vida antes de eu existir. Quero saber todos os pormenores. Eu sei que sou chata, mas acho muito injusto só saber esta parte. E as outras pessoas que se foram despedir de ti, que te conheceram "uma vida inteira"? Que te conheciam "há mais anos"? A minha dor não se mede aos anos. Espero que saibas. A minha dor mede-se aos decibéis, o som que falta nesta casa - o teu som.

Friday, March 29, 2013

Há dias que não vejo nada senão este chão
Estas paredes
Estas camas e estas janelas.

Isto tanto podia ser uma prisão como um hospital.

O clímax da saúde e da doença, da felicidade e da tristeza.

A mim ninguém me tira daqui.

As amarras que me prendem são feitas de luxo e glória. São feitas de mais do que iogurte seco nos cantos da minha boca. São muito mais que a minha garganta seca. São feitas de mim e de ti.

As pessoas são cântaros de barro. Cheios de água. Quando a água transborda, tal não é a quantidade abismal de saúde ("tudo de bom!"), nasce um pequeno cântarozinho. Um mini eu ou um mini tu.

Mas a minha água secou hoje, evaporou. E agora estou vazio. E se me partem, transformo-me em pó. 
E assim já ninguém me compra. Já não sirvo.
21/03/13

Saturday, March 23, 2013

Não ligues, pai.

Eles não sabem que tu és surdo.

E que tu não gostas de Cristo. Não ligues.

A mãe fez aquilo que achou melhor, melhor para todos. Sabes que a maioria faz a força.

Misericórdia, dizem eles. Se fosses tu, dizias que misericórdia é a Casa do Caso Pia. Que Misericórdia é ter amor aos nossos. É dizer que sim às cooperativas e dizer que sim aos amigos e às amigas aos domingos. Dizer que somos todos iguais, uns mais iguais que outros.

E por falar em Maria, a tua única Maria era a mãe. "Maria, anda lá à bica."

"Maria, qual é a roupa para esta ocasião?"

"Maria, porque é que me puseram neste caixão?"

"Maria, muito obrigado por me fazeres a vontade. Eu não deixei escrito como tu dizias."

"Maria, espera aí por mim, porra."

Macacos me mordam se eu não vou assinar o meu próprio livro de condolências.

Ó pai, eles disseram o teu nome. Sem problemas nem hesitações disseram o teu nome completo. Como se estivesses nalgum serviço público. Chamaram-te e pronto. Tens de aparecer. Isto é como um serviço público. E agora inscreveram-te para a vida eterna. Se aqui estivesses (a sério) estarias lá fora, a fumar um cigarrinho. Vou ver se estás lá fora. Isto está a ficar mórbido.

Sinto-te aqui no ar frio desta manhã cinzenta. Tu gostavas de usar cinzento. Aquelas calças cinzentas. Se estivesses aqui eu dizia que está um frio muito escocês! E tu dizias, "Pois..." E eu perguntava-te quando é que me ias visitar. "Tens de ir na graduação, pai!" E tu davas um pouco de esperança e dizias "Logo se vê, filha."
Já era o suficiente para mim. E eu fiquei muito contente.

Estou a pensar nisto como se fosse uma grande festa uma grande festa uma grande festa para ti. Lembras-te, como quando fizeste 50 anos. Juntaste muita gente muita gente muita gente muita gente. Devias ter feito a mesma coisa quando fizeste 60 e 65. Juntar muita gente muita gente.

Tuesday, March 19, 2013