Thursday, May 31, 2012

Vais ficar enterrado
nas areias movediças de mim
como todas as fantasias obsoletas.

E se eu deixo passar um dia em que não sinto a estalactite perfurar-me o diafragma então é porque não pensei no luto o suficiente. Ofendo a tua memória. Ofendo todos os momentos felizes que partilhámos. Ofendo-nos ao não sofrer.

Hoje passei o dia numa ilusão-sonho. Estive o dia todo num sonho-sonâmbulo-acordado. Começava com uma mentira. Depois, eu imaginava a verdade. Depois, ligava o ponto 23 ao ponto 24. Depois, o desenho formava-se-me na pálpebra mas ao contrário. E eu pensava que era assim que fazia sentido. Parecia que me estavas a esconder a surpresa. Uma grande surpresa no dia de Natal - mas tu estavas a fingir que ainda não era Natal. Ou pior, que o Natal já tinha passado. E eu - só de imaginar que podia estar a sonhar - chorava. Queria esfaquear a realidade e passar para uma utopia melhor - em que todas as mentiras faziam sentido porque me estavam a dar esperanças. As esperanças sabiam a açúcar em pó. O pó que fica nos meus brinquedos quando estás comigo.

Sunday, May 27, 2012

"Liga-me."

Não sabias que eu iria ter o telefone dentro de mim quando ligasses. Não sabias quem eu ia ter dentro de mim quando me quisesses.

E tu pensavas que ias ter um jantar à luz das velas. Não sabias que elas iam ficar tão bem espetadas nos teus belos olhos verdes.
 
E pensavas que o sangue que ia descer pelas tuas pernas ia ser a menstruação misturada com a água do banho pós-coital - o meu duche favorito. Mas claro, também não sabias que um cacto podia ir tão longe não é? Afinal é só uma planta. Eu ofereci-te o cacto para saberes como é a sensação. De quereres desesperadamente ser tocada por alguém mas só causares dor. Cala-te, não menosprezes a minha emoção. Não faças pouco do meu amor-obsessão. Esse sorriso lindo que me dás não sabe que eu sonho todos os dias arrancá-lo do lugar. Eu não estava a brincar quando disse "um dia destes parto-te o sorriso".
 
O dia chegou e deixa-me que te diga: tens os caninos tortos mais bonitos que alguma vez vi. E os molares, rasgados da carne festiva, esses são os mais doces que já me passaram pelas papilas gustativas. Sim, não foi acidente quando te toquei no dente enquanto nos beijávamos. Não foi acidente.
 
Pensavas que eu te ia levar àquele bosque muito encantado porque disseste que adoravas uma das árvores mais que todas as outras. Não sabias que eu ia acelerar o carro deixando-te abraçar eternamente o seu tronco. Esmurrar a tua bela face contra o vidro partido. Epiderme, sílica, fauna. O meu quadro mais moderno.

Tuesday, May 22, 2012

Mais um capítulo, menos uma flecha para atirar. É o início do amanhã e ainda nem está de noite.

Bebo sal ao acordar e bebo sal ao adormecer. O sal não é do nosso valor mas sabe bem na mesma. Dizer que te amo só abrevia a dor ou acrescenta uma vírgula ao bom dia e ao até já. E este avião não vai ser abreviado. Infelizmente este avião não vai cair na ilha.

Talvez eu caia no rio e a corrente me leve de volta. Ter com aquele que me lança pólvora para os olhos durante a noite. Ele não faz por mal, mãe.

Ele desbloqueou um nível mais avançado de fazer pipocas doces. Mais uma colher de acúçar, mais um tremor de pernas. Eu não estou a dizer que ele me põe chocolate líquido na ponta dos pés e depois come. Nem que polvilha a minha barriga de canela em pó e depois sopra. Não estou a contar o que ele fez com as uvas, os chocolates Baci ou os tomates-cereja. Só estou a dizer que estou com náuseas da maresia. Ou então o Peter Pan fez-me um filho.

Wednesday, May 16, 2012

a abelha que pousa no punho que entra e sai e entra e sai

a abelha não pica mas também não come. a abelha berra e chora e lá vai mamando

os meus meninos preferidos estão na prateleira do móvel da sala com vista para o parque.

as meninas, essas, como são feias e porcas, ficam no canto mais escuro do quarto. e à noite, quando me deito com a minha mulher, obrigo-as a ouvir-nos enquanto fazemos amor. também as obrigo a abrir as perninhas quando não vão a minha casa na hora de almoço da escolinha. na minha memória ficam queimadas as velinhas que acendo e cuja cera lhes chove nos pézinhos. na minha memória fica pisado o sangue que jorra das suas coninhas. um dedo, dois dedos, três dedinhos.

 a Maria adora manteiga de amendoim. a Maria é a minha cadela.

a pílula da Maria é a diversão dos meus meninos. eles ficam muito aliviados quando eu lhes deixo brincar com ela.

as meninas, essas são levadas para a cozinha tal como manda a tradição. só que, para me divertir um pouco mais, coloco-lhes as trelas suplentes e digo-lhes que é a nossa nova brincadeira. elas gostam muito de brincar aos cãezinhos. até quando lhes digo que a pipi delas é como uma fatia de pão-rico e a Maria não morde. depois, depois o meu orgasmo é simplesmente burocrático.

Tuesday, May 15, 2012

escreveste na pele a nota de suicídio que deus te deu.

ele nunca soube escrever correctamente e, por isso, a mensagem perdia-se

e eu sei que vocês brincavam muito aos puzzles, mas agora és tu quem mexe as peças

(ele já te ensinou tudo o que tinhas para aprender)

- Olá, sou o teu alter ego mais bonito e simpático

o batom na tua pele já perdeu o brilho e o sabor a morango

as palavras, essas, são eternas mesmo que tenhas Alzheimer

não gritem tanto - os poetas não gritam. os sociopatas não gritam. os espertos não gritam. os pais nunca gritam. os namorados nunca gritam. as amantes nunca gritam. as princesas nunca gritaram.

a tua pele nunca arrepiou. e já não roemos as unhas. sabemos fingir horrores. já não há que ter medo.

Wednesday, May 9, 2012

Forever is out for the weekend.
Why don't you sit next to Here and Now?
I'm gonna go get us some drinks from Jobless and Drunk.
Hi, Smart! Have you heard the latest from Slut?
Romance is dead and gone.
Nerd is the new Cool and Wittiness is the new Attractive.
So, why don't we get over Love, who ran away with Lust and just fuck our brains out off the pill cases and STD's our parents and shrinks warned us about?
Worst case scenario, my balloon-heart pops out as needle-like snake Always comes around.

Saturday, May 5, 2012

- O que te traz aqui?

- Se eu tivesse um botão de partilhar, o amanhã não tinha razões para não existir.

- O que esperas retirar daqui? Partilhas a tua pele?

- Eu sou uma menina muito má. Sou egoísta. Não partilho os meus brinquedos. Mas dou-me todos os dias um bocadinho à almofada.

- Como te sentes em relação a isso?

- Mereço ser castigada. E eu sei que não vai ser com carimbo roxo na epiderme. Se calhar ajudava. Mas prefiro lixívia ao chegar a casa.

- Se calhar um chip de GPS. Se bem que um duche de lixívia também não faz mal a ninguém.

- Não mereço a lixívia?

- Queres perder a liberdade.

- Porque não?

- Porque todos queremos regras.

- Mas só se for lixívia marca branca. [Fiz unlock aos meus poderes.]

Friday, May 4, 2012

a tua felicidade é uma viagem, não é uma corrida

aquele botão não diz "tentar novamente"; diz: "actualizar ou cancelar "

também a levo na retina, onde ficou cravada em estado de permanência temporária
é um ficheiro temporário que eventualmente o sistema vai apagar

às vezes, também o deserto do Saara perde grãos de areia
às vezes amo menos coisas
às vezes amo coisas a mais
às vezes tenho medo do que vou amar demasiado
às vezes tenho medo de mim próprio
olhar-me ao espelho e não ver o baloiço onde te sentas

o meu espelho é tanto a rede que nos separa quanto o monstro que vês em mim
tu e eles sempre

e eu acabo por te detestar cada vez que uso uma vírgula

a distância que nos separa não é mais que uma vírgula

e corrige-me se estiver errado - isto dói-me tanto a mim como a ti
talvez doa em lugares diferentes

sim, dói, disse ela
ela disse e confirmou
e depois ouvi-a dizer que mentia com todos os dentes de leite que ainda tinha
e depois ainda pergunta se acha que é bonito mentir
eu disse-lhe achas que eu menti achas mesmo que eu te minto

e eu disse-lhe: se colocares este
 papel na horizontal
vais ver o bater
do meu coração
exactamente como
 ele bateu hoje
quando te vi
vi o teu sorriso
 e morri

Tuesday, May 1, 2012

E se não percebes as minhas mensagens codificadas vê se percebes isto: gosto da maneira como os teus genes e cromossomas interagem uns com os outros. Adoro os alelos e as moléculas que se cruzam e formam novos pedacinhos de ti. E gosto muito de tudo o que fizeram para, cá fora, a tua máquina ser mais bonita que as outras. Para que os teus poros gostassem dos meus poros. Nós sabemos que eles têm vontade própria. Eles sabem o que querem. E sabem o que é melhor para nós.
E é por isso que eu (máquina) gosto da tua espiral dextrógira. Ela vai melhorar a minha. (Tu vais melhorar a mim.) A nossa árvore não tem fim. E lá, no cimo do olimpo, elas ainda se vão rir das nossas máquinas e poros. (Os meus também gritam pelos teus.)

E desculpa se tenho um problema de expressão.