Sentires-te especial comporta uma ironia medonha. Num edifício com quiçá milhares de pessoas iguais a ti, num país, num planeta com as costuras a rebentar.
O que há de especial em sentires-te especial? Especial: distinto, diferente, destacável, melhor/importante?
Vai tudo dar à tua auto-estima, auto-confiança e a tua própria autocracia. Não é segredo nenhum que toda a gente quer atenção e mimos. Isso aplica-se a todo o dia e toda a hora e todos os papéis que desempenhas ao longo da tua vida. Queres aquele alguém que te vai fazer sentir especial e queres aquele emprego que te vai fazer sentir importante. Secretamente acreditas que o teu emprego é mais importante e relevante que o do teu vizinho e que, obviamente, és essencial para os teus superiores. Oito horas em pé ou oito horas sentada, apanhar lixo da rua ou director de uma multinacional. Já não há comunistas. Como dizia o Vilches na série espanhola Hospital Central: nadie es insustituible.
Lamento estar a soar tão fatalista (não lamento). Mas este conceito não é mais que um espirro no monitor. Usamos malas coloridas, desactivamos o Facebook, levamos pauzinhos chineses para comer, dizemos palavrões a alto e bom som e, se for preciso, começamos uma discussão só para chamar à atenção. As vossas palavras estrangeiras de ciao bella, sorry baby, hola chica esbarram na couraça da minha indiferença.
O meu microondas é mais especial que o teu porque está limpinho. A minha comida continua no tupperware, mas não gosto nada de usar coisas sujas - não são especiais o suficiente para mim e para o meu comer esquentado.
Na fila para o café também sou especial porque os funcionários sabem o meu nome e sabem o que vou pedir.
Somos uma espécie de enviados dos céus já que pairamos no ar por cima dos telefones, gravadores de chamadas, telefones móveis, sabe-se lá mais o quê. Quando não estamos disponíveis, há outro que nos substitui, exactamente igual e com a formação exactamente igual e que vai ajudar o cliente exactamente como nós. McDonalização do local de trabalho? O que há de especial no hambúrguer que comeste hoje no McDonald's do Oeiras Shopping? É exactamente igual ao hambúrguer que a mesma empresa vende nas Filipinas.
(A consistência fazia sentido em 1940, agora já é um pouco sobre-estimada.)
E a minha literatura pode ser porca, estar doente, ser mal educada - podes dizer o que quiseres. Mas vou sempre dizer as verdades de agora; as minhas. Um funcionário é um funcionário é um funcionário. Somos todos clones.
E não é porque não há dor que há prazer. E não é por não seres despedido que adoras o teu emprego e tão-pouco é porque não há divórcio que há um casamento feliz.
Infernos de Anas. Chamam-se todas Anas. Ana especial 1, Ana especial 2, Ana especial 3... Et cetera, et cetera.
Não te sintas especial só porque dedico minutos da minha vida a discutir futebol contigo. E não te sintas especial só porque sabes a situação actual do país e podes participar na discussão dos meninos populares. E não te sintas no direito de pedir ouvidos. Não sou uma golden share.
Não sou uma golden share nem sou aquela que querias. Provavelmente, sou o teu plano Z. Achas que isso me faz molhar a roupa interior? Achas que isso me faz bater o coração mais depressa? Eu sei que até podemos ter a mesma origem. Contudo, eu vou para a esquerda e tu... Vai para onde quiseres mas desaparece do meu mapa.
Não tens de usar saltos altos e uma roupa menos feminina só porque foste promovida. Deixa os óculos em casa e traz um sorriso. (Nunca te esqueças de sorrir.) Usavas muitas vezes saltos altos antes de seres promovida?
Não, não, não. Juro que não sou do contra. E juro que não sou contra saltos altos.
Sou a favor: de trabalhar oito horas por dia, viver com os pais, andar de traseira tremida, não adicionar todos os colegas de trabalho no Facebook, e não dar prendas a ninguém no Natal. De não ser consistente, de mudar de ideias, de ser inconformista, inconformada, desrespeitada, descabida, despenteada, mal vestida!!!
Vou ser aquela que vais desvirgindar, aquela com que vais iniciar o ano, passar o aniversário, dar a prenda mais cara, comemorar a celebração, passear no meu carro novo, gestar o teu bebé!!!
Nem sei como vim parar aqui. Abrir o sítio de empregos; seleccionar aqueles que se aplicam mais ou menos às minhas habilidades copy ao endereço electrónico, paste na nova mensagem criada. Anexar o CV actualizado e rezar pelo melhor. Esperar e esperar.
Não desespero e surpreendo: a chamada, a entrevista e os testes. O primeiro contacto, o encontro e as próximas situações. O início do namoro, as discussões. O cinema e os passeios no parque ou na praia. As fotografias e as apresentações à família. Os dias da menstruação e as dores de dentes. Os jantares românticos e o acordar ao teu lado. O pensar em mim o dia todo e o chegar atrasado ao emprego. O chegar atrasado ao emprego e o sorriso idiota na boca. O amor, o amor.
O amor é escolhido. O amor não é sentido até pensares que o vais perder. O coração bate mais depressa quando ele se exalta e grita. Mesmo que não seja contigo (para não bater na mãe, dá um soco na parede.) Para não acabares com ele, toma uma caixa de comprimidos.
Ter um paramour du jour será mais rentável em termos emocionais. Troca e venda de emoções. Vendem-se e trocam-se sentimentos. Compra e venda de indivíduos de uma forma muito mais sóciocultural que o habitual mercado negro. Negro e sujo e fora-da-lei. Qual lei? A de Deus? A dos Homens?
Que lei rege o teu território? Aquele em que tomas decisões. Limonada ou xarope. Etílico ou destilado. Comprimidos ou corda. Cremação ou enterro. Reclama e não questiona. És multada, mutilada, e não refilas. Que lei rege as tuas decisões? A tua alma? A tua falta de carisma? A tua abundância de perfume? Que lei rege aquele que o cheira? Que lei protege os inocentes das tuas controvérsias e/ou pecados?
Sou aquela que queres derrotar, assobiar e quem sabe mastigar. Sou aquela que não se mexe, serpenteia e surpreende. Sou a mais bonita de todos os clones (o meu cabelo brilha mais que o das outras.) E sou o menino mais alto de entre os sete anões. E sou o menos chato, o mais engraçado, e recebo menos subsídios do estado.
E sou mais potente, mais multi-facetado e menos lento. E menos complicado, e menos aborrecido e menos angélico.
Encontrei-te na zona dos reduzidos. Eras igual aos outros e sem defeitos. Estavas ainda na embalagem e limpinha. Limpinha como uma menina bonita. Como um aparelho acabadinho de sair da fábrica. Com elásticos e pregos e autocolantes novos e coloridos.
Por muito colorida que te aches, tudo depende da moda que vais tentar seguir. Cores instantâneas: é só abrir o pacote, misturar os ingredientes e levar ao forno. Sem sabor e sem cheiro. Sem contexto nem vocabulário. Sem erros de gramática e nem sequer de cálculo. Todos os degraus que já viste e sentiste na ponta dos teus pés e na essência do teu ser, subir ou descer. Ganhar ou perder. Ter e não ter aquilo que anseias e todas as dúvidas que nos enchem de lágrimas os olhos e de vento os ouvidos. Porquê a mim?
Por que chove só em cima de ti e por que te calha só a ti que já não há Cheese Cake há hora de almoço? E por que te calha que os teus filhos não gostam de ti como tu esperavas? E por que só a ti que não te sai o Euromilhões?
Seja qual for o teu complexo, de superioridade ou de inferioridade. Só para que saibas: não há cura. Não há tratamento. Não há solução nem passos de resolução e nem sequer uma hipótese de desenrrascanço. A não ser que queiras brincar aos dados. A cada face dás uma vida, a cada lançamento és uma diferente. Assim não tens de pensar muito se és especial ou não. (Vais-te achar tão novidade que não vais querer outra coisa.)
O universo recompensa os feios.
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