Saturday, January 30, 2021

emigrante

O emigrante não morre,

o emigrante apanha o avião.

Cada ocasião de férias é como uma morte na família que eventualmente vai acontecer.

O emigrante não sente felicidade,

sente alívio de ver os seus no mesmo sítio, as suas coisas no mesmo sítio, e os mesmos sítios de sempre.

O emigrante não faz planos porque ir a casa não é um passeio, é voltar ao normal.

O emigrante não faz planos de férias fora, porque as férias servem para voltar ao normal.

O emigrante nunca se sente normal.

O emigrante vive encolhido no estrangeiro porque não tem quem o ampare.

O emigrante não faz planos porque, eventualmente, vai ter de voltar.

Cada despedida é um prego no caixão, (depois de vários pregos no pão.)

Não está cá, nem acolá. Está no espaço liminar entre a tristeza e a loucura, a identidade nacional e a destreza de quem sabe os seus direitos como passageiro a bordo de um 737.

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