Sunday, April 11, 2021


cut me





Cut me as if I were your little wild flower.

Cut me like you'd think I'd take pleasure from it.

Like you'd want me to propagate wildly.

I'm not sure I wouldn't like it.

I've always seen myself as tough,

an adventuress.

I'm so ready for a new adventure.

Please, cut me with some paper.

Just so that I can be so annoyed, yet can't complain.

After all, it's just a papercut.


Make me wet without ever touching me

Make me wet from 2200km away

I wouldn't put it past you.

Friday, March 19, 2021

Eu, sem ansiolíticos

Pessoas que têm ansiedade não vivem no presente.
Vivem num futuro próximo ou num mais distante que potencializa ataques de pânico muito rápidos. 
Como é que eu vou morrer?

Vivem no amanhã ou no depois de amanhã.
E não é que sejam muito boas a planear coisas.
As pessoas com ansiedade não vivem daqui a uns dias porque estão a planear meticulosamente como esses dias vão correr ou no que vão fazer até lá.
Não.

Essas pessoas estão apenas a perguntar-se qual é a natureza desses dias. 
Como chega uma terça-feira?

Porque estou eu, num domingo à noite, a pensar em terça-feira? 
Não é que haja algo de especial na terça-feira. na verdade, não há nada.
Esse 'nada' faz confusão ao cérebro sem ansiolíticos.

Será que ainda vou existir na quinta-feira? Neste momento, não existo na quinta-feira.
Como é que o tempo funciona?

Eu, sem ansiolíticos, passo horas a duvidar de como a semana funciona.

E já para não falar do fim de semana... que mais parece um poço à sexta-feira; 
só de pensar que tenho de chegar a domingo à noite e duvidar.

Como é que eu chego a sexta-feira?

Saturday, January 30, 2021

emigrante

O emigrante não morre,

o emigrante apanha o avião.

Cada ocasião de férias é como uma morte na família que eventualmente vai acontecer.

O emigrante não sente felicidade,

sente alívio de ver os seus no mesmo sítio, as suas coisas no mesmo sítio, e os mesmos sítios de sempre.

O emigrante não faz planos porque ir a casa não é um passeio, é voltar ao normal.

O emigrante não faz planos de férias fora, porque as férias servem para voltar ao normal.

O emigrante nunca se sente normal.

O emigrante vive encolhido no estrangeiro porque não tem quem o ampare.

O emigrante não faz planos porque, eventualmente, vai ter de voltar.

Cada despedida é um prego no caixão, (depois de vários pregos no pão.)

Não está cá, nem acolá. Está no espaço liminar entre a tristeza e a loucura, a identidade nacional e a destreza de quem sabe os seus direitos como passageiro a bordo de um 737.